¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, outubro 05, 2006
 
EU, HOMEM SEM PECADOS, ME CONFESSO



Alguns leitores ficaram chocados com minhas críticas recentes a Sua Santidade, por seu pedido de misericórdia a Deus pelas vítimas do Boeing da Gol. Não poucos me perguntam porque odeio tanto o papa. Ora, não odeio ninguém. Estes leitores devem estar contaminados pelo petismo. Esta pergunta é típica de petista. Mal tecemos uma crítica ao PT, lá vem a objeção: mas por que tanto ódio ao PT? Ora, se crítica fosse sinônimo de ódio, a humanidade toda só avançaria odiando. Não penso assim. Com ódio só se chega ao retrocesso, a ditaduras, torturas, matanças colossais. Foi o que fizeram os marxistas no século passado, ao insuflar o ódio entre as classes como estratégia de conquista do poder. China, 65 milhões de cadáveres. URSS, 20 milhões. Coréia do Norte e Camboja, dois milhões cada. Vietnã, um milhão. Europa do Leste, mais outro milhão.

Por outro lado, em duas crônicas recentes, a respeito do pronunciamento de Bento XVI sobre o Islã, tomei a defesa de Sua Santidade. Não posso admitir que cabeças-de-toalha fanáticos determinem o que se pode ou não se pode dizer no Ocidente. Sem falar que o papa enunciava uma verdade histórica, encontrável em qualquer livro de história ou enciclopédia. Mas não posso defender um homem que, do alto de sua curul cardinalícia, acoberta os crimes de seus sacerdotes.

Há também quem ache que desejo a extinção da Igreja Católica. Nada disso. Aceito todas as religiões. Enfim, quase todas: não posso aceitar essas que usam lavagem cerebral para conquistar adeptos. Aceito todos os pensamentos diferentes. Exceto aqueles que querem proibir todo pensamento diferente. Um mundo em que todos pensassem igual seria algo monótono e sem graça. Mesmo aceitando a idéia de religiões, me sinto com pleno direito para criticá-las. A Idade Média já vai longe. Nenhuma igreja, nenhum pontífice habita hoje um topos uranos, fora do alcance de qualquer crítica.

Diz um leitor: "algumas, talvez muitas vítimas, pediram, suplicaram naqueles poucos segundos de queda livre no ar pelo perdão dos seus pecados". Isso é coisa que ninguém pede ante uma morte súbita. Nesse instante, o que passa pela mente é uma visão rápida da vida toda, uma sensação de pânico e nada mais. Misericórdia pediria quem, acreditando em Deus e temendo a justiça divina, se sentisse o último dos pecadores - se é que tivesse tempo para tanto. Ora, para pecar é preciso crer na noção de pecado. Só religiosos pecam. Quem não crê, não peca. Eu, por exemplo, sou um homem sem pecado algum.

Pedir misericórdia ao deus católico significa crer nesse deus. Como pode Bento XVI pressupor que as pessoas que estavam naquele vôo eram todas católicas e viviam em pecado? Eu me sentiria insultado se um papa qualquer pedisse misericórdia por minha alma. Para começar, nem em alma acredito. Muito menos em imortalidade da dita ou em justiças do Além. No dia em que estiver partindo, não pedirei misericórdia a potestade alguma. Mas se um sacerdote me oferecesse uma generosa taça de sangue de boa safra, de preferência sub specie carmenère ou malbec da Cordilheira, de bom grado aceitaria o sangue divino.

"A fé católica não lhe é indiferente" - diz o leitor. Sim, não me é indiferente. Pois vivo imerso nela. Vivesse na Grécia antiga, provavelmente estaria xingando todos os deuses da Pólis. Vivesse em mundo muçulmano, eu xingaria Alá e os aiatolás. Claro que xingaria uma vez só, pois na segunda já estaria morto. O que condeno na Igreja não é sua fé. Que creiam no que quiserem e boa sorte a todos. O que condeno é essa mania teocrática dos católicos de pretender influir em Estados laicos, em questões como homossexualismo, aborto, matrimônio. Não vivemos em universo muçulmano. No Ocidente a cisão entre Estado e Igreja ocorreu há séculos e o Vaticano parece ainda não ter percebido isto.

Bento XVI, homem crente e temeroso a Deus, é quem devia pedir misericórdia por ter acobertado crimes de pedofilia. Uma coisa é um homem, em um momento de desvario, cometer um crime. Outra, e bem mais grave, é um homem acobertar friamente, sentado em uma escrivaninha, os crimes de milhares de outros homens. Em um texto soberbo, intitulado Ni victimes ni bourreaux, Camus recusava a violência confortável que provém de intelectuais cujas palavras vão mais longe que os atos. A absolvição tácita de Bento XVI a milhares de padres criminosos é bem mais grave que o crime cometido por cada um.

Vou mais longe: devia não apenas pedir misericórdia ao deus que cultua, como também deveria responder criminalmente por seus atos. Acobertar crimes é também um crime. Não será por sentar na cadeira de Pedro que um homem pode permanecer impune ante a lei penal.