¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 12, 2007
 
TECNOLOGIA AMEAÇA SUPERSTIÇÕES



Em dezembro de 2005, escrevi artigo intitulado "Sobre Maimônides" no qual, entre outras coisas, enumerava curiosos hábitos judeus que observei em Higienópolis, o bairro onde vivo. Fui acusado, por um grupo de judeus, de sentir-me "incomodado com as pessoas que vivem no seu bairro, seus ritos e costumes?" Não, nunca me senti incomodado. Apenas achava tudo aquilo muito estranho. O Estadão de ontem, em reportagem intitulada "O desafio de manter a tradição kosher na era pop", enumera mais algumas dessas idiossincrasias, que reproduzo abaixo.

- Como é proibido apertar um interruptor, a maioria compra timers para que as luzes se acendam e apaguem automaticamente.

- Para que a luz dentro da geladeira não se acenda durante o shabat, a lâmpada é retirada.

- Elevadores dos prédios mais modernos de Higienópolis, bairro predominantemente judeu em São Paulo, param andar por andar para que a pessoa não tenha de apertar o botão.

- Não é permitido cozinhar no shabat. Um apetrecho muito usado é a plata de shabat, espécie de chapa elétrica que pode ficar ligada durante 72 horas. Assim, a refeição pode ser aquecida antes de ser servida.

- Não se pode usar a torneira de água quente, por causa da proibição de cozinhar. Para lavar a louça, muitas donas de casa enchem a pia de água quente antes do início do shabat, colocam detergente na água e cobrem com papel alumínio até a hora de usar.

- Como não é permitido rasgar o papel higiênico no shabat, muitas famílias compram guardanapos para deixar nos banheiros.

- Não é permitido carregar nada no shabat, seja documentos, dinheiro ou mesmo a chave da porta. Ainda assim, não há lei que proíba o ato de vestir. Para levar a chave quando saem de casa, muitos judeus a amarram em um elástico bem grande e "vestem" o acessório na cintura.

Suponho que desta vez os senhores judeus não dirão que o sóbrio Estadão está se sentindo incomodado com os hábitos da comunidade. A reportagem levanta um problema que preocupa os atuais rabinos, como manter o interesse pelo judaísmo nestes dias de Internet. "Em um mundo tecnológico, como fazer com que os judeus praticantes permaneçam kosher (ortodoxos)? Não se pode acender nenhuma luz no sábado, dia considerado sagrado, no qual o mínimo esforço deve ser evitado? Nem mesmo chamar o elevador? E como não fechar negócios no fim de semana? O dono da maior construtora de São Paulo, Eli Horn, por seguir a lei judaica à risca, não deixa ninguém da Cyrela, por exemplo, assinar documentos justamente no dia em que mais apartamentos são vendidos na cidade". Pior ainda: como fazer com que os adolescentes entendam a proibição ao celular e à internet aos sábados?

Acho que não será fácil. É prazeroso constatar como inovações tecnológicas, que a rigor nada têm a ver com ortodoxias, ameaçam superstições milenares.