¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, junho 24, 2008
 
MELHOR NÃO TER CARRO



Leitores me perguntam sobre o que penso da proibição de beber qualquer gota de álcool antes de dirigir. Bom, eu vivi em um país em que era proibido beber nos bares, a Suécia dos anos 70. Beber, só em restaurantes, e com comida. E só das doze à meia-noite. Se você chegava a uma pizzaria às 11h30min e pedia um vinho, nada feito. O vinho só seria servido às 12h, e a preços de tornar sóbrio qualquer cristão. Em supermercados, a bebida de mais alto teor alcoólico permissível era a mellanöl, uma cervejinha com 2% de álcool. Mesmo assim, era proibida sua venda a menores de 18 anos.

Como se bebia então na Suécia? Nos restaurantes, como já disse. Quanto à compra de bebidas alcoólicas, estas eram feitas nos systembollag, lojas de monopólio estatal. Que abriam das oito da manhã, quando todo mundo estava no trabalho, até as seis da tarde, quando todo mundo ainda não havia saído do trabalho. Nessas lojas, de quinze em quinze minutos, um alarme sonoro indicava que o cliente – caso fosse suspeito de ser menor – tinha de mostrar documento de identidade. Também devia identificar-se quem era registrado como alcoólatra.

Isso sem falar nos impostos que incidiam sobre o álcool. Hoje não lembro o percentual, mas tornavam proibitivo qualquer porre. Uma das soluções encontradas pelos Svenssons para beber era viajar até a Finlândia ou Dinamarca. Mal o barco desatracava do cais, considerava-se que as águas eram internacionais. E podia-se beber skattefri, isto é, sem impostos. Ignorando estes jeitinhos, certa vez tomei um barco para uma ilha na Finlândia. Na ilha, o barco atracou e eu desci. Queria dar uma olhadela na ilha.

Olhei para trás: ninguém descera do barco. Só eu. Me senti ridículo até a medula. Não era para descer. Era só para beber. Sem falar que cada passageiro podia voltar a Estocolmo com duas garrafas de bebida alcoólica. Que, vendidas no câmbio negro, pagavam sobejamente a passagem. Algumas velhotas faziam disto um acréscimo a suas aposentadorias. Na Dinamarca, mais liberal, a chegada de tais barcos era tida como “a invasão dos bárbaros do norte”.

Hoje já se pode beber em bares na Suécia, e o mundo não veio abaixo por causa disto. Mas comprar bebidas, só em systembollag. Continua proibido beber na rua. Os bares fazem então um cercado nas calçadas. Se você está dentro do cercado, pode beber. Está no bar. Fora do cercado não pode. Estas restrições ao álcool são escandinavas e abrangem tanto a Noruega como a Finlândia. Suponho que também a Islândia. Na última vez que estive na Noruega, fui prover-me de algum vinho em um systembollag. Lá havia um cartaz:

CONSUMO SÓ PERMITIDO A MAIORES DE 25 ANOS

Exagero, direis. Também acho. Como também me parece exagero esta proibição de qualquer gota de álcool para dirigir. Não dirijo, nunca tive carro, mas suponho que um ou dois chopes não afetem a capacidade de dirigir. Mas o problema não é este. E sim a capacidade de fiscalização. São Paulo, por exemplo, tem dez milhões de habitantes – não falo da grande São Paulo – e 75 mil bares e restaurantes. Pelo que me dizem os jornais, a polícia dispõe de 80 bafômetros. Quer dizer, será mais uma das leis que não pegam. Tanto maconha como cocaína são hoje drogas proibidas. Ora, você as encontra em qualquer esquina. Os legisladores de Brasília vivem em um mundo irreal e consideram que se pode resolver por lei situações que nenhuma lei resolve.

Nunca tive carro, dizia. Quando em Florianópolis, senti necessidade de ter um. Eu morava na Lagoa e lecionava na Trindade. Dependia da carona de minha Baixinha. Certo dia, pensei aprender a dirigir. Sentei no volante, virei a chave de ignição e o carro deu um monte de pulos. Achei muito complicado e desisti. Além disso, eu adorava uma ou mais caipirinhas em fim de tarde. Ora, entre a cidade e a Lagoa há o morro das Sete Curvas. Optei pela caipirinhas e desisti da idéia de carro. Preferi morar no centro da cidade.

Essa é mais uma das leis que não pegam. Uma lei só pode se sustentar se houver como aplicá-la. No caso, não há. Aos leitores que me pedem uma opinião, la voilà: não dirija. Beber é melhor. Mesmo que você não beba, nada impede que o motorista que lhe vem pela frente esteja bêbado. Melhor mesmo é não ter carro.

Nunca tive e nunca senti falta. Semana que vem vou para paragens onde nenhum carro me leva. Vou para Tromsø, no extremo norte da Noruega, já no Círculo Polar Ártico. Se um carro não me leva até lá, não me interessa. Assim sendo, estou alheio a esta discussão de beber ou não beber antes de dirigir.

Mas não se preocupe quem gosta de um traguinho. Daqui a três meses não se fala mais no assunto.

Santé!