¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, junho 19, 2009
 
UNIVERSIDADES (I)


Mal o STF considerou inconstitucional a exigência de diploma para o exercício do jornalismo, já há deputados pretendendo reinstituir a lei espúria. O Brasil adora regulamentações. Não sei se o leitor sabe, mas neste país até a profissão de flanelinha, aquele marginal que lhe extorque dinheiro para não riscar seu carro, já foi regulamentada. Por nada menos que um dos próceres do regime militar, general Ernesto Geisel. Y a las pruebas me remito.

LEI Nº 6.242, DE 23 DE SETEMBRO DE 1975
Publicada no DOU de 24/09/1975

Dispõe sobre o exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º O exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, em todo o território nacional, depende de registro na Delegacia Regional do Trabalho Competente.

Art. 2º Para o registro a que se refere o artigo anterior, poderão as Delegacias Regionais do Trabalho celebrar convênio com quaisquer órgãos da Administração Pública Federal, Estadual ou Municipal.

Art. 3º A concessão do registro somente se fará mediante a apresentação, pelo interessado, dos seguintes documentos: etc, etc, etc.

Art. 6º Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 23 de setembro de 1975; 154º da Independência e 87º da República.

Ernesto Geisel
Arnaldo Prieto


Só faltou exigir curso superior. Outra profissão que se pretendeu regulamentar foi a de astrólogo. Em 2006, o senador Artur da Távola – pra variar, velho comunista – apresentou projeto neste sentido. Vigaristas de outras áreas de auto-ajuda, os psicanalistas chegaram a pretender regulamentar suas vigarices. Como a ética entre canalhas é poderosa, deixaram a pretensão de lado. Qualquer lei que fosse promulgada beneficiaria alguma seita, em prejuízo das demais. Melhor deixar como estar.

Mas se flanelinhas, astrólogos e psicanalistas não fazem falta a ninguém, jornalista faz falta. E comunicação não é coisa que se aprenda em universidade. Durante séculos, foi jornalista quem exercia o jornalismo. De repente, três patetas tupiniquins, levados ao poder pelo Exército, decidiram há quarenta anos que jornalista só pode ser quem tem diploma de jornalista. Um imenso mercado de trabalho abriu-se para incompetentes que jamais pisaram numa redação e pretendem ensinar como se faz jornalismo. O espantoso é que, em menos do espaço de uma vida, há pessoas que acreditam que jornalismo não se pode fazer sem diploma. Ora, desde 1808, desde o Correio Braziliense, impresso em Londres pelo jornalista Hipólito da Costa, o jornalismo brasileiro foi feito por pessoas que jamais pisaram em cursos de jornalismo.

Em meio a isto, uma velha discussão: para que serve a universidade? Pode servir para muita coisa e para nada. Nas áreas científicas, que exigem laboratórios, aparelhos, cadáveres para dissecação, telescópios, pesquisas químicas, biológicas ou físicas, é óbvio que universidade é fundamental. O mesmo não se pode dizer de cursos de giz e quadro negro. Como aluno, passei por cinco universidades, em Santa Maria e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e em Estocolmo, Paris e Madri. Isso sem falar em mais quatro anos de magistério, na graduação e pós-graduação, na Universidade Federal de Santa Catarina. Com a experiência de quem gramou por quase duas décadas em bancos universitários, tentarei fazer um balanço do que recebi destas universidades.