¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, agosto 19, 2013
 
MEMÓRIAS DE UM EX-ESCRITOR (X)


Quando abordamos a obra de um escritor de renome, as mulheres que o acompanharam fazem parte de sua fama, trate-se de um Balzac ou de um Vinícius de Morais. Mas quando o candidato a escritor começa a fugir da monogamia, a gostar de muitas mulheres, seu gesto é quase criminoso. Se o candidato em questão for mulher, pior ainda: é puta e fim de papo. Em um escritor famoso, as muitas mulheres são um adorno à sua biografia. Como em uma escritora ou artista de renome, os vários homens que freqüentaram seu leito constituem currículo, aí estão Lou Salomé, Anaïs Nin, Frida Kahlo, Patrícia Galvão. No adolescente que começa a rabiscar seus contos, seja macho seja fêmea, a diversidade de parceiros é um estigma. Mesmo em Porto Alegre, em ambiente universitário, este comportamento não era muito bem visto. Na época, um radical de esquerda, mais tarde alcaide da capital e hoje ministro da Cultura, comentou que eu deveria ter muitos problemas, pois sempre andava com várias mulheres. Mandei um recado de volta: problemas teria ele, que andava sempre com a mesma. Eu tinha, isto sim, muitas soluções. Mais ainda: sem jamais ter mentido a nenhuma parceira.

Outro atrito com a cidade, a polêmica em torno à reforma agrária. Com os debates sobre a prostituição, foram surgindo detalhes que não imaginávamos existir. Por que uma mulher se torna prostituta? Por prazer é que não é. Havia o problema da migração do homem do campo para a cidade. Se o pequeno proprietário rural abandonava o campo com sua prole, era porque o latifúndio o expulsava. Os comunistas que nos rodeavam foram pródigos em bibliografia. Na época – final do governo Goulart – a grande questão nacional era decidir se a reforma agrária já estava prevista na Constituição, ou se seria necessário reformá-la para dividir as terras.

Lançamos então – éramos uns cinco ou seis pivetes, na faixa dos 14 ou 15 anos – um manifesto no Pirilampo, um jornalzinho estudantil que havíamos criado, em defesa da reforma agrária, solidamente fundamentado em Direito Constitucional. Era impresso na gráfica do Ponche Verde, de propriedade de Bernardo Munhoz, jornalista e fazendeiro. Na mesma semana, o jornal nos desancava em furioso editorial, assinado pelo Dr. Márcio Bazan. (Nas cidades do interior, todo bacharel se intitula doutor). O editorialista, advogado ao estilo antigo, em um texto pontilhado de muito latim, alertava a comunidade para os perigos do comunismo. O que preocupava as "forças vivas do município" era saber onde nós, pivetes, havíamos encontrado tantos argumentos jurídicos. Só podia ser coisa de comunista.

Não estavam longe da verdade. Naquela época, chegavam a Dom Pedrito dois exemplares do jornal Brasil, Urgente, editado em São Paulo por dominicanos de esquerda. Um dos exemplares era nosso, o outro do partido. Quem os distribuía era o Gerson Prabaldi, operário e militante, um dos raros comunistas que até hoje merece meu respeito. Funileiro, patrão de si próprio, lutava por uma sociedade mais justa, nada a ver com os filhos da classe média que fizeram carreira e fortuna montados nos ideais socialistas. Final de tarde, fechava a funilaria, pegava uma bicicleta e saía a fazer seu apostolado, o porta-cargas repleto de ideologia. Líamos as revistas China e Unión Soviética, ambas em espanhol, mais aquele catecismo em edições mensais do PC, a revista Problemas, e muita imprensa de esquerda.

O funileiro acreditava na utopia e dedicava suas horas de lazer à construção do socialismo. Homem de uma era pré-televisiva, na qual mesmo os jornais que eventualmente chegavam a Dom Pedrito desconheciam o que se passava no mundo soviético, Gérson acreditava piamente nos panfletos vindos de Pequim ou Moscou. Fosse um dia ao paraíso que louvava, ou tivesse melhores fontes de informação, tenho certeza de que faria marcha a ré. Era homem desinformado, mas honesto. Em sua oficina, rodeado de pneus e aros de bicicletas, recebi minhas primeiras aulas de marxismo, baseadas em um livrinho de Georges Politzer, Curso de Filosofia - Princípios Fundamentais. Primeiras e primárias: sua argumentação simplória não me convencia. No entanto, este divulgador menor foi bastante significativo. Em sua tentativa de trocar em miúdos o marxismo para um público operário, Politzer despe a doutrina de sua retórica e a exibe em sua indigência.

Nem por isso deixo de admirar o apóstolo da bicicleta, apesar de sua visão simplista do mundo. Com sua assessoria, argumentos para debate ideológico ou constitucional era o que não nos faltava. Enquanto os oblatos nos falavam em corpo místico de Cristo, estávamos mergulhados em estudos de materialismo dialético. Hoje, sabemos que as duas religiões pouco diferem uma da outra. Na época, eu julgava estar manipulando um método científico para encontrar um pouco de luz em meio às trevas clericais. Esconjuradas as trevas, acabei jogando no lixo o suposto método científico. Foi precioso como instrumento de libertação de uma fé. Eu conseguira escapar de uma religião, com não pouco sofrimento. Não estava disposto a submeter-me ao jugo de outra.

No dia seguinte às catilinárias do Ponche Verde, estávamos batendo às portas do Dr. Munhoz, de Constituição e Lei de Imprensa em punho, indignados. Exigíamos direito de resposta, o que nos foi concedido. Apelávamos aos sentimentos cristãos da comunidade, talvez até antecipando a dita teologia da libertação. Título:

Exigência de Cristo:
amor aos comunistas


Para não fazer feio ante o latinista, jogamos cá e lá alguns datas venias e quousque tandens na réplica, mais ou menos ao azar, assim como quem joga sal em uma picanha. O artigo foi publicado, cercado de editoriais. Novo mistério, nosso conhecimento do latim dos juristas. O único a matar a charada foi o padre Francisco, outro oblato vindo da Alemanha, professor de matemática: "Focês non me enganan, focês lerram as páchinas finais do Aurrélio". Na época, havia uma edição do Aurélio com expressões latinas ao final. Mas pesquisa nunca foi pecado.

Em meio a réplicas e tréplicas, um de nossos professores de português começou uma frase com um pronome oblíquo. Fomos implacáveis: "Admoestamos o ínclito mestre da língua vernácula que as mais elementares regras gramaticológicas coarctam o emprego do pronome oblíquo nos proêmios de uma frase". A resposta veio curta e grossa: "Rui Barbosa não foi presidente da República". Gerson Prabaldi voava em sua bicicleta, difundindo a polêmica. Me consta que as edições do semanário se esgotaram naqueles dias.